
Pesquisa de Harvard que acompanhou pessoas por mais de 80 anos aponta o fator mais determinante para ter felicidade e ser saudável
Fama, dinheiro e reconhecimento profissional costumam ser vistos como os símbolos máximos de realização e felicidade. Mas, a ciência mostra que, na verdade, o caminho para uma vida feliz é outro.
Iniciado em 1938, o estudo científico mais longo já realizado sobre a felicidade humana chegou à conclusão de que o principal marcador de bem-estar está na qualidade dos relacionamentos.
Conduzida pela Universidade de Harvard por mais de 80 anos, a pesquisa acompanhou mais de 2 mil participantes ao longo da vida adulta. O projeto, conhecido como Harvard Study of Adult Development, analisou saúde física e mental, carreira e vínculos pessoais para analisar qual tinha mais peso na felicidade.
“Relações interpessoais de qualidade desempenham um papel fundamental na felicidade. O ser humano é, por natureza, programado biologicamente para criar conexões. Nesse contexto, relações saudáveis ajudam a regular o sistema nervoso, o que contribui para a saúde mental e física, além de favorecer a construção de uma identidade sólida”, explica a psicóloga Silvia Rezende, professora do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq).
Por que as relações influenciam tanto no bem-estar?
A explicação para essa pergunta envolve tanto mecanismos biológicos como a experiência de cada pessoa. O ser humano é biologicamente orientado para a conexão. Desde a infância, a qualidade das relações molda a forma como o cérebro aprende a lidar com estresse, medo e frustração.
É exatamente por isso que relações seguras funcionam como um regulador emocional. Em casos de enfrentamento de dificuldade — seja um problema no trabalho, uma perda ou um conflito — ter com quem contar diminui a sensação de ameaça diante daquele problema.
Além do aspecto biológico, existe também a dimensão subjetiva. Vínculos fortes oferecem sensação de pertencimento, reconhecimento e validação. Por isso, se sentir compreendido por alguém que importa fortalece a própria identidade e ainda contribui para a percepção de que a vida tem sentido.
“Na psiquiatria, não avaliamos a felicidade apenas com a ausência de transtornos mentais. Felicidade não é simplesmente ‘não estar deprimido’. Utilizamos escalas de bem-estar subjetivo, qualidade de vida e satisfação com a vida, além da avaliação clínica do funcionamento global do indivíduo”, ressalta o psiquiatra Oswaldo Petermann Neto, da plataforma Doctoralia.
Por outro lado, relações que são caracterizadas por instabilidade, isolamento ou conflitos constantes podem aumentar a sensação de insegurança e solidão. Com o passar do tempo, esse cenário está associado a maior vulnerabilidade emocional e pior qualidade de vida.
Dinheiro e sucesso são importantes, mas não centrais
O estudo de Harvard não desconsidera a importância da estabilidade financeira, já que ter segurança econômica diminui preocupações básicas e aumenta as possibilidades de escolhas na vida. No entanto, os dados mostram que, depois de certo nível de conforto, o dinheiro deixa de ser determinante para a felicidade.
O mesmo vale para reconhecimento profissional, porque conquistas até podem trazer satisfação, mas não substituem relações saudáveis e duradouras. É como se não adiantasse ter sucesso se não há alguém com quem compartilhar.

Você pode ser feliz e, ainda sim, sofrer
Outro ponto observado pelos especialistas é que uma vida feliz não é livre de dor ou sofrimento. O verdadeiro diferencial vem da capacidade de passar por esses momentos sem perder o senso de propósito.
Ainda segundo o psiquiatra Petermann, o crescimento nos diagnósticos de depressão e ansiedade não pode ser interpretado como um sinal de uma sociedade menos feliz. Para ele, dois movimentos acontecem ao mesmo tempo.
De um lado, existe mais pressão por desempenho, exposição nas redes sociais e comparação social, fatores que favorecem o sofrimento psíquico. De outro, houve redução do estigma e maior acesso à informação, o que leva mais pessoas a procurarem ajuda e a nomearem o que sentem.
“O aumento dos diagnósticos de depressão e ansiedade reflete uma população mais atenta à própria saúde mental e mais disposta a buscar tratamento”, conclui Petermann.
Fonte Original: Metrópoles












