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Plantas medicinais: esperança de terapia acessível contra o câncer

Plantas tradicionalmente utilizadas em sistemas de medicina ancestral mostram como saberes marginalizados têm se mostrado relevantes

*O artigo foi escrito pela biomédica Lays da Silva e o professor Israel Felzenszwalb, ambos da UERJ, e pelo professor Carlos Fernando Lima, da Unirio, e publicado na plataforma The Conversation Brasil.

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Atualmente, cerca de 21,3 milhões de pessoas estão acometidas de algum tipo de câncer ao redor do mundo. Provavelmente, menos da metade delas irá sobreviver. É o que dizem os números do Cancer Tomorrow, do Globocan, uma ferramenta da Organização Mundial da saúde.

A ferramenta é capaz de prever a incidência e a mortalidade do câncer no mundo todo. Além da incidência cada dia mais alarmante, o prognóstico da doença é diretamente afetado por diferenças socioeconômicas.

Pobreza, ruralidade e raça se apresentam como barreiras de acesso ao diagnóstico precoce e a tratamentos eficazes. Nesse contexto, o uso de plantas medicinais no enfrentamento do câncer acende uma esperança para a obtenção de novas alternativas terapêuticas mais acessíveis.

Além disso, tal prática constrói, por meio da etnofarmacologia, uma ponte entre tecnologias ancestrais e lacunas atuais. Essa associação reafirma a importância dos saberes tradicionais, sem se apropriar ou descontextualizar o conhecimento que eles trazem.

Mãe-de-milhares: ancestralidade que se tornou popular

Conhecidas também como aranto, folha miraculosa (uma tradução livre de “Miracle-Leaf”), folha-da-fortuna e, tradicionalmente, nomeada de Àbàmòdá (nomenclatura Yorubá para Kalanchoe pinnata), as espécies do gênero Kalanchoe carregam simbologia e exemplificam com notável clareza a profundidade e a sofisticação dos saberes oriundos das populações tradicionais brasileiras.

Nessas tradições, as práticas terapêuticas não apenas resistem ao tempo, mas se atualizam e se expandem por meio dos fluxos migratórios internos e da diáspora afrodescendente.

Os terreiros de matriz africana, enquanto espaços de culto, cura e conhecimento, despontam como verdadeiros repositórios de saberes etnobotânicos e cosmológicos. Estes saberes articulam corpo, território e espiritualidade.

Reconhecer a relevância desses sistemas de conhecimento na construção de soluções terapêuticas contemporâneas não é apenas uma demanda ética, mas um imperativo científico e político.

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Usos litúrgicos e curativos

Diversos relatos indicam que os usos litúrgico e curativo dessas plantas são incorporados à medicina tradicional africana por meio da cosmologia. Nesta, doenças físicas e espirituais são tratadas conjuntamente.

As plantas são mediadoras entre corpo, território e ancestralidade. Essa rede simbólica e funcional sustentou a circulação destas plantas no contexto da diáspora.

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E seu uso permanece ativo em casas de axé no Brasil, reforçando a continuidade do conhecimento ancestral africano nos sistemas religiosos afro-brasileiros.

O uso das espécies de Kalanchoe como plantas medicinais se popularizou tanto no Brasil que é possível encontrar diversos resultados utilizando as chaves de busca “aranto medicinal” no Google, apresentando desde reportagens em veículos de grande mídia e artigos em blogs pessoais a vídeos no Youtube.

Dentre os resultados mais relevantes, encontram-se reportagens que alertam a população sobre o uso indiscriminado destas plantas. E reforçam o cuidado com a divulgação de dados que ainda não foram plenamente confirmados pela ciência.

Uso popular e tradicional x evidências científicas:

Dentre as espécies mais proeminentes estão Kalanchoe pinnata e Kalanchoe daigremontiana, cujo valor ornamental e facilidade de cultivo contribuíram para que se espalhassem pelo mundo.

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Ambas são popularmente e tradicionalmente utilizadas como tratamento para feridas, furúnculos, inchaços, dermatoses, hipertensões, doenças proliferativas e do trato gastrointestinal.

Além disso, ajudam a combater inflamações no geral. Diversas evidências científicas contemporâneas vêm de forma progressiva pavimentando um caminho técnico para a elucidação de suas atividades biológicas.

O uso tradicional de Kalanchoe pinnata no alívio de dores de cabeça e como analgésico encontra respaldo em evidências que demonstram seu potencial efeito antinociceptivo, com mecanismos de ação semelhantes à inibição da enzima ciclooxigenase (COX) e à consequente redução de mediadores inflamatórios.

Esses achados também ajudam a esclarecer sua aplicação no tratamento de inchaços, frequentemente associados a quadros de dor e inflamação.

Estudos com extratos aquosos e etanólicos da planta demonstraram propriedades anti-inflamatórias, cicatrizantes e antimicrobianas.

Os resultados são evidenciados pela redução da área de feridas e diminuição dos níveis de citocinas inflamatórias como IL-1β e TNF-α.

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Além disso, há estudos sobre a promoção da angiogênese por meio da indução da expressão do Fator de Crescimento Endotelial Vascular (VEGF).

A crença em seu uso como diurético, com infusões preparadas a partir das folhas, encontra paralelo em estudos em que demonstraram efeitos hepatoprotetores, antioxidantes e hipoglicemiantes.

Esses estudos sugerem uma ação sistêmica capaz de auxiliar na eliminação de toxinas e no equilíbrio metabólico.

Tais evidências também justificam seu uso tradicional para o tratamento da hipertensão. Neste uso, há fortalecimento da função renal e ação antioxidante que podem contribuir para a regulação da pressão arterial.

Multitarget

Kalanchoe daigremontiana é constantemente citada por sua grande concentração de moléculas bioativas com perfil “multitarget”.

Esta espécie possui mecanismos sofisticados de ação como os bufadienolídeos e flavanóide glicosilados. Ela também apresenta relevante ação anti-inflamatória, antioxidante e imunomoduladora.

Seu uso popular no combate a doenças proliferativas (como tumores) encontra respaldo científico em evidências que destacam sua ação antitumoral em células JB6 Cl41( câncer de pele), HeLa (adenocarcinoma de colo do útero), SKOV-3 (câncer de ovário), MCF-7 (adenocarcinoma de mama) e A375 (melanoma maligno) de forma seletiva.

Esta ação acontece por meio da modulação de genes ligados a morte celular e do balanço redox de células de origem tumoral.

Em nosso laboratório, o Labmut, do Departamento de Biofísica e Biometria, do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), fizemos a análise da composição química de extratos aquosos de Kalanchoe daigremontiana.

Nossos estudos foram realizados pela técnica de cromatografia líquida de ultra-alta eficiência acoplada à espectrometria de massas de alta resolução. E revelou uma ampla diversidade de compostos bioativos com potencial farmacológico.

Entre esses compostos, estão moléculas com características relacionadas à absorção, distribuição, metabolismo, excreção e baixa toxicidade. Essas moléculas são relevantes para a prospecção de novos agentes, especialmente no contexto da quimioterapia.

Mais do que um achado químico, o uso de extratos aquosos carrega um significado importante. Ele dialoga diretamente com as formas tradicionais de preparo e uso da planta, amplamente descritas em sistemas de medicina ancestral.

A água, historicamente empregada como solvente em chás, infusões e macerações, não apenas respeita o saber etnofarmacológico associado à Kalanchoe, como também demonstra ser capaz de extrair compostos biologicamente relevantes. E isso, agora, já é validado por ferramentas analíticas modernas.

Esse encontro entre tecnologia de ponta e conhecimento tradicional reforça a ideia de que práticas ancestrais não representam um saber “pré-científico”, mas sim um ponto de partida legítimo para a investigação biomédica contemporânea.

Com isso, contribuímos para o desenvolvimento de terapias mais acessíveis, culturalmente contextualizadas e biologicamente eficazes.

Valorização do passado para um futuro sustentável

Em um mundo marcado por profundas desigualdades sociais e por recorrentes formas de violência epistêmica, há algo especial e poderoso quando a comunidade científica se dispõe a investigar esses temas sem se apropriar, silenciar ou deslegitimar os saberes dos quais eles emergem.

É importante reconhecer o pertencimento desses conhecimentos. É fundamental respeitar o contexto histórico, cultural e social em que foram construídos.

E é ainda mais relevante quando conseguimos mobilizar o saber e a tecnologia de um povo no enfrentamento de uma de suas maiores mazelas: o câncer.

Nesse cenário, a interlocução entre ciência contemporânea e saberes tradicionais desponta como um caminho promissor. Além disso, torna-se eticamente comprometido para a concretização de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. E que não sejam apenas retóricas, mas efetivamente ancorados em equidade.

É importante destacar a preservação da biodiversidade e a justiça social. Ao integrar métodos científicos rigorosos com a medicina ancestral, ampliam-se não apenas as possibilidades de validação científica desses saberes, mas também o acesso a estratégias de cuidado em saúde mais inclusivas. Pensamos especialmente nas comunidades historicamente marginalizadas e socialmente vulneráveis.


Esta pesquisa recebe apoio financeiros de agências como a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes), que também financia a publicação deste artigo.The Conversation


Fonte Original: Metrópoles

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