
Neste domingo, 10, se comemora em todo o Brasil, o “Dia das Mães”, uma das datas mais importantes do ano, tanto para as famílias, como para o comércio, que considera ser a segunda data festiva com maior apelo comercial, perdendo apenas para o Natal.
Para falarmos dessa data tão especial para todos, a reportagem do Tribuna Ourinhense, entrevistou duas ‘mães solo’, nome que é dado a aquelas mães que após a separação tornam-se responsáveis únicas pela sobrevivência, educação e formação de seus filhos.

Vanessa Ramos Debastiani, é Analista de Recursos Humanos e mãe de Luiz Eduardo Debastiani Peres, de 12 anos. Além de ter que assumir a função de mãe solo, após sua separação, Vanessa encarou outro desafio desde seu nascimento. ‘Dudu’ nasceu com TEA (Transtorno do Espectro Autista – Nível de Suporte 2) fato que a levou a ter que enfrentar e se adaptar a diversas situações adversas, por ser uma mãe-atípica. Em entrevista, ela nos contou todas as dificuldades e superações, mas também, a grande experiência de vida que é a maternidade. “No início foi bem difícil, desde que ele nasceu, pois nunca tive rede de apoio. Então eu me anulei como mulher, sou apenas a mãe do Dudu. Justamente por essa rotina solo, não tenho tempo nem espaço para ter uma vida social. Quando não estou trabalhando, estou com ele em terapias ou em casa, acredito que a grande dificuldade de além de ser uma mãe-solo, ser também uma mãe atípica, foi ter que abrir mão da própria identidade. Infelizmente meu filho não tem amigos, não tenho como deixá-lo com qualquer pessoa, mas luto para que ele possa ser independente de mim. O que é mais difícil para mim é pensar todos os dias o que será dele quando não tiver mais a mim. Quero que ele possa viver bem. Na verdade, eu nunca planejei ser mãe. Dudu veio por descuido. Mas hoje, olhando para trás, foi a melhor coisa que me aconteceu. É um amor inexplicável. E ele me fez crescer muito, olhar para além de mim, ele me ensina muita coisa, e acredito que faz de mim uma pessoa mais forte. O dia das mães pra mim é uma data comercial, penso que as que se reconhecem no papel, não precisam de um dia específico para serem “homenageadas”. A sobrecarga das mulheres em geral é grande, mas a gente se adapta de alguma forma, precisando ter cuidado pra não adoecer física e emocionalmente, o que não é nada fácil, e é claro que para uma mãe solo é mais difícil. E eu discordo que filhos criados fora de uma estrutura “convencional” sejam os problemáticos. Nossa sociedade ainda é muito machista, e isso é muito relativo. Acredito que uma criança criada com amor, ensinando a ter limites e valores, tende a ser um ser humano melhor, mesmo que ela não conviva com os pais”, ressaltou.

Sueli Aparecida Farias é formada em Serviço Social e Servidora Municipal. Além de ser uma mãe solo, também têm outro aspecto peculiar: é mãe dos trigêmeos André, Afonso e Augusto (todos com19 anos), e nos contou como foi administrar a vida de mãe solo de três crianças da mesma idade, após sua separação, com a vida pessoal e profissional. “A maternidade aconteceu para mim aos meus 28 anos e foi um divisor de águas imenso, fui grandemente abençoada com filhos trigêmeos e me vi com uma grande responsabilidade, que se tornou maior ainda, a partir da caminhada solo. Nesse momento precisei refazer minhas rotas e tomar decisões, como investir na minha formação profissional, que até então estava estacionada, batalhar por um novo trabalho e me organizar para trabalhar, estudar e ser mãe. A Sueli mulher nesse momento, precisou de uma pausa e a dedicação a partir daí foi total para os cuidados com os meninos e garantir renda para sobrevivência. Mesmo em meio a muita turbulência eu decidi voltar a estudar para garantir mudança de vida para nós e também realizar o sonho que estava guardado de fazer uma faculdade. O aspecto mais difícil, foi ter força e resiliência para me refazer e restituir minha confiança de que seria capaz de seguir adiante e ser a mãe que meus filhos precisavam e mereciam. Ser mãe é uma dádiva e é uma realização incrível. Me sinto honrada e abençoada por Deus e isso me fortaleceu bastante. Ser mãe requer muita entrega, determinação, compromisso e investimento de tempo, de sentimentos, de provimento das necessidades, é estar constantemente disponível para a construção da relação mãe e filho. E esse foi o mais desafiador, pois no início eu não sabia me acolher e respeitar meus limites, pois queria fazer tudo e por dois. Após muitas reflexões, amadurecimento e sábios conselhos de pessoas muito especiais, hoje consigo entender que além de uma mãe realizada e feliz pelos meus filhos eu também posso ser uma mulher com planos e sonhos pessoais. Eu diria para as ‘mães solo’ assim como eu, para procurar espaços e pessoas que representam apoio, partilhas e fonte de trocas de experiências. Diria ainda para não serem tão exigentes consigo mesma e não terem vergonha de pedir ajuda, de serem ajudadas e de reconhecer momentos de cansaço. Eu diria para terem coragem de lutar pelos direitos de seus filhos e acreditar que uma maternidade com amor, carinho, diálogo e presença é o maior legado que podemos deixar para nossos filhos e que a gente não se esqueça que somos MÃES, não podemos e nem devemos preencher lacunas de outras ausências. Os desafios foram grandes, mas as vitórias foram maiores ainda, porque não foram somente minhas. Minha rede de apoio familiar foi decisiva e fez toda diferença na minha vida e na vida dos meus filhos. Meus pais e irmãos, seguraram na minha mão e me apoiaram em todo caminho. Foram nossa referência de amor e cuidado e não nos abandonaram. Segui em frente. E se cheguei até aqui, se hoje olho meus filhos, pessoas amáveis, que me dão orgulho, todos na faculdade, construindo suas vidas, me enchem o coração de gratidão é porque muitas pessoas me apoiaram e me fazem lembrar de um sábio ditado “é preciso de uma aldeia inteira para cuidar de uma criança”. Como isso é verdadeiro! Eu tive essa aldeia, que foram a minha família e meus vizinhos. A importância desta data deveria estar na necessidade de transformar a celebração comercial em um debate sobre a realidade materna no Brasil. É contraditório que a mesma sociedade que romantiza a maternidade seja a que marginaliza e julga a mãe solo. O estigma de que filhos criados por mulheres ou avós seriam ‘problemáticos’ é uma percepção rasa que desconsidera a árdua e contínua batalha dessas famílias e, visivelmente silencia sobre o abandono paterno e a insuficiência de políticas públicas de cuidado. Nós, mães ou responsáveis solo, lutamos para exercer uma responsabilidade de amar, cuidar e prover, sendo que essa responsabilidade deveria ser compartilhada e apoiada por todos os responsáveis, pela sociedade e pelo Estado.







